O Tao da Física - Fritjof Capra

Sei que este livro é relativamente antigo, mas achei esta entrevista e resolvi postar para vocês. Apesar de ter sido realizada a tempos, é bem atual....



Referência obrigatória quando o tema é Nova Era, o físico Fritjof Capra popularizou-se nos anos 70 com seu livro "O Tao da Física", no qual mostra os paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental. Seu trabalho hoje vai além do meio acadêmico, atingindo políticos e empresários.

Por Fátima Afonso

Segundo o físico austríaco Fritjof Capra, autor de O Tao da Física, O Ponto de Mutação e Sabedoria Incomum (publicados no Brasil pela Editora Cultrix), os problemas mais críticos enfrentados hoje pelo homem - seja em nível político, econômico, social, de saúde ou ecológico - integram uma complexa crise de percepção da realidade. Herdeiros da concepção mecanicista de René Descartes, adotamos erroneamente uma visão fragmentada do mundo, que precisa ser abandonada com urgência em favor de um novo paradigma baseado na ecologia profunda e na parceria.


Para Capra, na verdade já nos encontramos no ponto inicial dessa mudança, fundamental para o estabelecimento de um futuro sustentável, mas ainda ignorado pela maioria dos políticos e líderes empresariais.


Em seu discurso, o físico austríaco tem feito importantes alertas em relação às condições do planeta. A possibilidade de colapso, acredita ele, é de fato enorme, Mas nem por isso ele se deixa abater: prova desse ânimo são seus livros, cursos, palestras e o trabalho que desenvolve no Elmwood - instituto fundado em outubro de 1984, em Berkeley, Estados Unidos, por um grupo de ativistas e pensadores que viam a mudança radical como única solução para a crise enfrentada pela humanidade e cujo objetivo principal é disseminar no mundo os valores do novo paradigma holístico.

Capra esteve no Brasil pela primeira vez no final de 1992, ocasião em que concedeu a presente entrevista a Fátima Afonso, de PLANETA

FA: Em seu livro O Ponto de Mutação, você diz que o mundo atravessa uma crise de percepção e que para sairmos dela teremos de passar por uma mudança de paradigma. O movimento ecológico e a onda new age podem ser considerados sinais de um início de mudança?

Capra: Para resolver essa crise nós temos de encontrar um novo modo de pensar, que vocês poderiam chamar pelo título de ecológico ou holístico. Meu ponto de vista é que, basicamente, precisamos de uma nova visão da realidade. Essa nova visão nasceu há algumas décadas e os diversos movimentos que agora existem podem ser encarados como respostas diferentes de diversas culturas desse novo paradigma O movimento começou na California, Estados Unidos, na década de 70. Uma constelação em particular dessa nova visão da realidade é o movimento new age; o movimento ecológico, assim como a política verde, é outra. Todos estes movimentos são, portanto, respostas à crise mundial. Como ela é multidimensional, precisamos das diferentes facetas dos diversos movimentos.

FA: Para obtermos mudanças efetivas teremos de atingir camadas significativas da sociedade, como políticos, empresários e religiões Como poderemos convencê-los a adotar o novo paradigma, já que eles não parecem muito dispostos a abrir mão de sua fatia de poder?

Capra: Na minha opinião, há um grande movimento global que está promovendo essa nova forma de pensar. Ela é encontrada nos meios educacionais e no meio comercial. Creio que não precisamos convencer as pessoas em geral, mas uma maioria significativa, entre 10% a 20% da sociedade, para conseguirmos uma mudança de peso.

FA: Em que diferem a visão sistêmica do mundo e a visão holística?

Capra: A diferença entre as visões sistêmicas e holísticas é meramente de terminologia. A expressão sistêmica é mais científica. Vejo a teoria sistêmica como sendo a mais perfeita formulação científica para o novo paradigma. Eu prefiro também a expressão ecológica à holística, mas as duas são semelhantes.

FA: Quais as probalidades de termos uma catástrofe ecológica no século 21?

Capra: É bem provável que tenhamos de enfrentar uma catástrofe ecológica no próximo século, a não ser que mudemos drasticamente nosso estilo de vida, nossa economia, nossas instituições. A parte mais importante do novo paradigma consiste em construir uma sociedade que nos permita satisfazer as necessidades do povo sem destruir o sistema que nos sustenta, sem acabar com nossas reservas naturais. Enfim, uma sociedade na qual possamos nos manter sem destruir ou reduzir as oportunidades para futuras gerações. O Worldwatch Institute, de Washington, acredita que precisamos fazer essa mudança até o ano 2030. Se não fizermos isso, o processo será irreversível e a catástrofe ocorrerá. Para conseguir esse desiderato, teremos de efetuar mudanças dramáticas nesta década. Por isso, os anos 90 são críticos.

FA: O que nós, cidadãos comuns, podemos fazer para impedir que isso aconteça?

Capra: Há muitas formas de ajudar. Os problemas são tão graves e multidimensionais que não importa onde iremos começar. Se você é professor, ensine: se for um arquiteto, construa casas, se for um negociante, faça isso nos seus negócios. Mas faça tudo de uma forma ecológica, holística.

FA: Como você situaria o Brasil em relação ao desenvolvimento sustentável?

Capra: Essa é a minha primeira visita ao Brasil, mas, em virtude das conversas que tive nestes últimos dias, sinto que o País poderia ter aí um lugar importante. Uma área que poderia ser interessante para vocês é a da energia solar, a qual está sendo desenvolvida de uma forma tal que seria proveitosa comercialmente, além de ser competitiva. O Brasil tem muita luz solar e uma área muito grande. Poderia, portanto, tornar-se pioneiro na tecnologia solar e usá-la na economia. O problema aqui, na verdade, não é ecológico, mas político. Para ser bem-sucedido, o País teria de investir pesadamente nesse tipo de tecnologia. Tive uma conversa com a (então) prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, a qual girou em torno das ligações entre a ecologia e a justiça social. Estes são ítens importantes, em especial nos países do hemisfério sul, onde vigora um conceito financeiro relativo ao desenvolvimento de exploração do povo - é uma noção coercitiva. O desenvolvimento é visto como um caminho estreito, tanto quanto o estilo de vida das nações industrializadas, que tiram os meios de vida dos povos desses países, transformando-os em produtos que então são vendidos no mercado mundial a preços que tais povos não podem pagar. Esse é um conceito de exploração que precisa ser modificado.
Não conseguiremos um equilíbrio ecológico sem que sejam resolvidos os problemas da dívida econômica pelos países e bancos do hemisfério norte. Este é um bom exemplo de como todos esses problemas estão intimamente ligados. Outro exemplo envolve as florestas tropicais, um tesouro da humanidade. Para preservá-las é necessário mudar os nossos conceitos relativos ao desenvolvimento e chegar a um sistema socialmente justo.

FA: Como surgiu a idéia de traçar um paralelo entre as tradições místicas do Oriente e a física moderna?

Capra: A idéia surgiu no fim de 1960. Comecei a me interessar pelo misticismo oriental e de imediato descobri os paralelos que existiam em relação à física moderna. Isso em virtude do meu trabalho como físico. Ao longo dos anos, meu entendimento a respeito tornou-se cada vez mais agudo e forte e terminei escrevendo O Tao da Física.

FA: A espiritualização é um fator inevitável para essa mudança de paradigma que você propõe, baseado na parceria?

Capra: A visão de que precisamos é ecológica, precisa ter suas raízes nessa espécie de percepção ou consciência. Consciência ecológica é consciência espiritual - sentir que estamos inteiramente ligados ao cosmos, que pertencemos ao universo. Este modo de sentir é o centro da consciência ecológica - ao nível ecológico mais profundo. Acho, então, que a visão ecológica tem de estar assentada na espiritualidade para ser bem-sucedida.
CELESFA

Centro Espírita Luz da Esperança de São Francisco de Assis

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